Paisagismo Brasileiro: Hora de parar de imitar e começar a florescer
Foto da sementeira do viveiro Arbovias
Por que muitos de nossos jardins ainda imitam antigos modelos europeus que pouco dialogam com nossos biomas? Por que seguimos podando o potencial das nossas espécies nativas literalmente e simbolicamente?
O paisagismo brasileiro carrega uma herança histórica de imitação. Desde os jardins franceses, símbolos de status e controle estético, até a adoção massiva de plantas exóticas, fomos nos afastando da nossa própria natureza. Curiosamente, na própria França, há uma crescente valorização de estilos mais naturais. E nós? Seguimos imitando modelos externos, muitas vezes incompatíveis com nossos biomas, nossa cultura e nosso modo de viver.
Essa escolha não é apenas estética, ela tem raízes culturais, políticas e até psicológicas. Durante séculos, a mata foi vista como ameaça, como doença. Uma ideia limitante que foi difundida como verdade. Por isso faz-se tão importante o pensamento crítico, a pesquisa e o olhar multidisciplinar para os espaços. Ao dar luz aos fatos veremos a riqueza que temos.
Ainda assim, é preciso reconhecer que nem toda espécie exótica deve ser descartada. Em alguns casos, o valor cultural, medicinal e afetivo dessas plantas justifica sua presença nos espaços urbanos e rurais, desde que não representem risco ecológico como as exóticas invasoras.
Felizmente, há um movimento crescente de retorno aos jardins naturais. Muitos paisagistas já defendem essa abordagem, mas ainda enfrentam diversos desafios: a baixa produção de espécies nativas, a escassez de pesquisas dessas espécies e o desconhecimento sobre o comportamento das plantas em ambientes urbanos.
A escolha de uma árvore, por exemplo, exige estudo. Raízes agressivas podem comprometer tubulações e equipamentos públicos. A arquitetura da copa, o porte final, a necessidade de poda, este e outros itens devem ser considerado antes do plantio. Muitas vezes, espécies são escolhidas sem que se compreenda seu desenvolvimento completo, o que leva a podas excessivas e constantes. Além do custo, isso compromete características importantes da planta como florescimento, frutificação ou mesmo resultar na entrada de patógenos.
No cenário atual, em que se discute o Plano Nacional de Arborização Urbana, a atuação da Embrapa como instituição de pesquisa ganha ainda mais relevância. A Embrapa tem um enorme potencial para contribuir com o tema. A criação de uma unidade mista de pesquisa e inovação voltada especificamente ao paisagismo e à arborização urbana, por exemplo, poderia ser implementada contribuindo para catalisar esforços nessa agenda.
Um exemplo promissor já está em andamento em Sinop (MT), desde 2023. O projeto Arbovias, uma parceria entre a Associação Floresta Urbana e a Embrapa que funciona, de certa forma, como um embrião desse modelo. A iniciativa mostra como é possível integrar ciência, planejamento urbano e valorização da flora nativa para transformar as cidades em ambientes mais saudáveis, resilientes e conectados com seus biomas.
Investir em paisagismo e arborização não é apenas uma questão estética: é uma estratégia de fortalecimento ecológico, geração de impacto econômico positivo e melhoria da qualidade de vida urbana, pensando na saúde humana e dos ecossistemas. Quando essas espécies nativas estiverem disponíveis no mercado, o impacto será não só ecológico, mas também econômico. O paisagismo pode se tornar um vetor de desenvolvimento sustentável e inovação, geração de renda e valorização da cultura local.
O paisagismo não é apenas estético. Trata de cultura e identidade, sobre quem somos e como queremos viver. Que tal começarmos a plantar ideias que floresçam com propósito?
Texto com revisão do Dr. Ingo Isernhagen, um dos idealizadores do viveiro Arbovias.